Diagnóstico em co-morbilidade de perturbação do desenvolvimento intelectual e perturbação do espectro do autismo: breve reflexão

De uma forma muito sucinta, Perturbação do Desenvolvimento Intelectual (PDI) corresponde à associação de um Défice Cognitivo (grosseiramente, inteligência abaixo do 2.º desvio-padrão negativo para a população geral) a um Défice no Comportamento Adaptativo (isto é, da autonomia pessoal e social nos domínios conceptual, social e prático); Perturbação do Espectro do Autismo corresponde, de uma forma simples, à associação de significativas dificuldades no relacionamento social a comportamentos repetitivos, restritos e ritualizados. Infelizmente, as situações de co-morbilidade entre as PEA e as Perturbações da Linguagem (PL) ou entre as PEA e as PDI são muito frequentes. Será legítimo perguntar-se, então, qual destas síndromes é a mais grave e com consequências mais deletérias no processo de construção de um projecto de vida para os sujeitos por elas afectadas. A resposta é: a PDI corresponde, quase invariavelmente, a uma situação clínica de muito maior gravidade. Para melhor percebermos esta hierarquização clínica, basta imaginarmos um sujeito de seis anos de idade que exibe estereotipias motoras, manifesta desinteresse relacional com os pares, diz uma palavra, não categoriza as cores, não consegue fazer encaixes de duas figuras geométricas e atira tudo para o chão. Faça-se, agora, uma pequena abstracção de “descontaminação sindromática”. Quadro um: o sujeito em epígrafe exibe estereotipias motoras, manifesta desinteresse relacional com os pares, mas fala como uma criança de seis anos de idade e já consegue fazer fusão fonémica (situação de PEA sem co-morbilidade com PL ou PDI); Quadro 2: o sujeito em epígrafe não exibe estereotipias ou outros comportamentos repetitivos e manifesta uma excelente intencionalidade comunicativa, mas diz uma só palavra, não categoriza as cores, não consegue fazer encaixes de duas figuras geométricas e atira tudo para o chão (situação de PDI sem co-morbilidade com PEA). Qual destas situações é obviamente mais grave e comprometedora do seu futuro? Julgo que ninguém duvida que o Quadro 2 é muito mais grave, razão por que o diagnóstico de PDI deverá ser formulado em primeiro lugar.

Vem esta reflexão a propósito da formulação frequente do diagnóstico de PEA (é um diagnóstico, apesar de tudo, mais fácil de evocar), sem se perceber se existe, ou não, em co-morbilidade, uma PDI (muitas vezes, ficamos sem saber se o Pediatra Neurodesenvolvimentalista escrutinou adequadamente esta situação). É que, em caso afirmativo, a PDI, apesar de menos espectacular de um ponto de vista clínico, é o primeiro diagnóstico a formular-se. É,  sem dúvida, pelas razões apontadas, a situação de pior prognóstico.

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