Apoio a pais de bebés com temperamento difícil

 

Introdução: Touchpoint, temperamento e vinculação

O desenvolvimento motor, cognitivo e emocional da criança, durante o primeiro ano de vida, é caracterizado por momentos de desorganização e de regressão que permitem, sucessivamente, a formação de uma organização mais complexa. Estes momentos, que Brazelton define como touchpoints, repercutem-se na criança e no respetivo núcleo familiar, podendo mesmo desestabilizá-lo, dando origem a conflitos interpessoais. Isto pode ocorrer mais facilmente nas famílias que, face a uma necessidade de mudança, assumem uma reação rígida e fechada (Brazelton, 1992).

Os referidos conflitos (relacionados, por exemplo, com a área do sono e da alimentação) podem interferir também com o normal desenvolvimento no primeiro ano de vida, no que respeita a algumas aquisições: regulação biológica, interação diádica equilibrada e formação de uma adequada vinculação (Sroufe & Rutter, 1984, 22).

Esta premissa conduz-nos a algumas reflexões: a criança, para alcançar as etapas indicadas, precisa dos cuidados e da proximidade de uma figura adulta, dotada de força, sabedoria e, ao mesmo tempo, capaz de descernir, com flexibilidade, as suas necessidades. Neste sentido, um desenvolvimento insatisfatório será o reflexo de uma transação complexa e não pode ser associado a um problema exclusivo da criança. Pela mesma razão, uma intervenção centrada em dificuldades precoces do desenvolvimento deve envolver a criança, o adulto responsável, não perdendo de vista o contexto familiar e sociocultural mais abrangentes.

O presente projeto aqui refletido, debruça-se, assim, numa fase da vida muito importante para a díade criança-adulto responsável, ou seja o primeiro ano de vida, e releva uma preocupação curativa e preventiva. E é assim porque as referidas dificuldades da criança, quando detetadas precocemente, são importantes sinais merecedores de uma atenta intervenção, preventiva de trajectórias inadaptativas ao longo da vida.

Grupo-alvo

            A literatura especifica vários fatores de risco intrínsecos e extrínsecos à criança. Um dos assinalados fatores de risco intrínsecos, por exemplo, é o temperamento difícil. Decorre daqui que seja muito importante trabalhar com díades mãe-bebé ou adulto responsável-bebé, em que o bebé já tenha pelo menos seis meses e indícios do referido temperamento.

            Em suma, convém definir este temperamento como sendo caracterizado por uma elevada resposta aos estímulos, traduzida em intensas e negativas reações emotivas, bem como em ritmos biológicos irregulares (Thomas, Chess & Brick 1968). Uma criança “difícil” poderá, com mais incidência, assumir uma relação hostil com o adulto responsável. Por sua vez, este necessitará, provavelmente, com maior acuidade, face a esta situação, de se interrogar face às suas competências no que respeita à relação com a criança. Estas competências, concretamente, de interpretar e responder adequadamente aos sinais da criança são definidas por sensibilidade e têm um papel chave no fortalecimento de uma vinculação segura (Mary Ainsworth, 1969).

            Por fim, é importante realçar que, conforme estudos realizados, poderá não ser só negativo um temperamento reativo da criança, geralmente muito suscetível ao ambiente social; também poderá ser muito positivo, pois uma acção com estas crianças tem uma potenciadora eficácia a nível preventivo (Belsky, Bakermans-Kranenburg, van IJzendoorn, 2007).

Finalidades

  • Promover a sensibilidade parental;
  • Dar apoio e orientação, tentando valorizar as qualidades da criança e da família;
  • Gerir o conflito entre as pressões sentidas em ambiente familiar e as características da criança, especialmente durante as referidas fases de desorganização;
  • Aumentar os conhecimentos dos pais sobre o desenvovimento da criança para que estes possam, mais facilmente, compreender o comportamento do próprio filho face às principais necessidades da primeira infância;
  • Potenciar uma vinculação segura.

Organização

O projeto tem uma duração breve, estando previstos 5 encontros e 2 sessões de pós-intervenção (após um mês e após seis meses).

Cada encontro/sessão tem uma duração de 45 minutos e envolve a díade mãe-bebé. A presença do pai é muito desejada, sobretudo nos primeiros dois encontros. É dada a preferência a práticas de intervenção breve, posto que estas têm sido as mais eficazes na promoção da sensibilidade e no reforço da vinculação (Bakermans-Kranenburg, van IJzendoorn & Juffer, 2003).

Metodologia

 Um dos instrumentos de trabalho, em sessão, será a filmagem e feedback, já há muito utilizada na área de investigação. Esta permite bem analizar a sensibilidade parental, potenciando-a, dado que possibilita a visualização da interação adulto-criança e posterior reflexão com o terapeuta.

Bibliografia

Ainsworth, M. D. S., (1969), Object relations, dependency and attachment: a theoretical review of the infant-mother relationship. Child Development, 40, 969-1025.

Bakermans-Kranenburg, M. J., van IJzendoorn, M. H. & Juffer, F. (2003). Less Is More: Meta-Analyses of Sensitivity and Attachment Interventions in Early Childhood. Psychological Bullettin, 129, 195-215.

Belsky, J., Bakermans-Kranenburg, M. J. & van IJzendoorn, M. H. (2007). For Better and for Worse. Differencial Susceptibility to Environmental Influences. Current directions in psychological science, 16, 300-305.

Brazelton, T. B., (1992). Touchpoints: Emotional and behavioral development. Reading. MA: Addison-Wesley.

Kerig, P., Ludlow, A., & Wenar, C. (2012). Developmental Psychopathology (6th edition). London, McGraw-Hill Publishing Company.

Moscardino, U. Axia, G. (2006). La misurazione del temperamento tramite l’Infant Behavior Questionnaire e il Toddler Behavior Assessment Questionnaire- Supplemented di Rothbart, Psicologia Clinica dello Sviluppo, 10, 67-92.

Sroufe, L.A & Rutter, M. (1984). The Domain of Developmental Psychopathology. Child Development, 55, 17-29.

Thomas, A., Chess, S., Brick, H. G. (1968). Temperament and behavior disorders in children. New York, NY: University Press.

Consulte o flyer aqui Apoio a pais de bebés com temp. difícil .

 

Por

Giovanna Fiore

Psicóloga Clínica

 

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